Eleonora Duvivier, escritora




"From Mars to Marceline - em busca de Disney", de Eleonora Duvivier / Ed. AuthorHouse


Expressão física de uma vivência espiritual

By Alexandros Papadopoulos Evremidis

A escritora brasileira e carioca Eleonora Duvivier acaba de lançar no Estados Unidos, onde vive, o livro From Mars to Marceline - em busca de Disney, que chegou às minhas mãos, não para fins de resenha, mas como presente por trazer transcritos na contracapa trechos de um comentário meu sobre ela. Lembro ter então resumido tudo em duas palavras cruciais: "avassaladora paixão". Agora, após ler este, não pude resistir de, à guisa de contraponto, pensar nas axiais "razão pura". Me acompanhe e veremos por quê.

Imagine, Leitor, uma menina frequentando a catequese católica e sendo aterrorizada com as constantes ameaças do eterno fogo dos infernos, caso não tivesse fé. Fé que lhe era socada garganta abaixo ou cérebro adentro, não germinando e brotando do seu íntimo, como seria o justo e apropriado e santo. E então subitamente "sofre" sua primeira grande revolução redentora.

Ao assistir, aos cinco anos, o Disneyfilme A Bela Adormecida, e ser defrontada com valores como coragem, romance e beleza, sente (o que leria anos depois nas palavras do próprio "Mago") que o paraíso existe e ela, e com ela todos nós, humanos - santos e pecadores -, e, por que não?! também os animais, o merece/mos. E mais, temos direito a ele.

E pronto! Pronto estava o esboço e prontas as fundações sobre as quais Eleonora, agora já adulta e mãe de filhos, edificaria, com delicada isenção e necessário distanciamento, para que sobre ela não recaísse a suspeita de suspeição por afinidade e daí comprometimento, esse belo From Mars to Marceline, que é, não uma biografia, mas uma justa e amorosa homenagem a quem lhe franqueou as portas da percepção e o voo livre da fantasia.

Mas também uma contundente e lúcida análise crítica, um ensaio psicológico e sociológico e, além, filosófico, sobre Disney [que se autorretratou espiritualmente como Adormecida e Chapeuzinho e Peter e Pato e Rato (este, com quem tudo começou)] e seu legado - no que, após sua ascensão (sic), foi mantido em sua genuína pureza original e no que inexoravelmente foi corrompido e vulgarizado pelo omnivoraz mercantilismo. (D)Efeito colateral do American Way of Life, que Walt tão fanatica e obstinada e patrioticamente enalteceu e imperializou (a ponto de, em dado momento, dedurar amigos comunistas à Comissão de Caça às Bruxas do Macartismo, manchando assim, indelevelmente, sua, de resto, feérica bio).

Águas passadas, pois, afinal, ninguém é perfeito, nem mesmo um hipotético Deus, e assim também não o seria Walt. Divinizá-lo equivaleria a corromper e estragá-lo. E compará-lo, relativizá-lo, reduzi-lo e eventualmente diminuí-lo. Ainda assim, arrisco, sem risco de erro, e para que fique registrado para a posteridade, que ele fez mais pela Humanidade que Marx, que tanto nos iludiu e ludibriou, levando-nos a sonhar um sonho que ele não sonhou.

Epigráfica, epitomiza Eleonora:

A busca de Disney é a busca de si mesmo.

Falar em American Way of Life torna forçoso também deixar claro e distinto que, em sua busca por Disney, seja no durante ou no imediato pós, Eleonora não se constrange nos limites do real, nem se contenta com apenas encontrar Disney - ela extrapola, mergulha com tudo e, perspicaz, cita e nomeia e situa os incensados (não seriam insensatos?!) ícones desse pretendido e defendido Way of Life, e põe e decompõe e depõe Super- e Mini-homens, Coca Cola, calças jeans, chicles e demais itens do catalisador repertório, massificante e despersonalizador, cristalizado (estagnado) mundialmente. Mas também não apenas cita e nomeia e situa, pois Eleonora não é narradora de fatos, é pensadora de idéias. E por pensar critica. Quase sempre explicitamente, algumas vezes, de contrabando. Mas ainda assim sempre sistematica e dialeticamente. Nunca dogmaticamente. Nem caberia, vista a delicadeza de sentimentos que transpira. Nos intervalos, aqui e ali, agora sim, para não perder o fio da Ariadne e, perdendo o fio-terra, se perder, busca em seu manancial de memória afetiva e revive e conta breves ocorrências e incidentes de cândida beleza e dramática nostalgia, de quando tudo era, parecia ser, sonho e fantasia.

No mais, o livro, de imaculada e serena maturidade, e daí clássico, por imune ao tempo e às suas intempestivas contingências, é em impecável inglês e tem impecável acabamento gráfico e editorial, e impecável, e sintomática e coerente no alçar voo, capa (dura, sinalizando que será durável) do irmão caçula dela, o músico e escultor Edgar Duvivier.

Anglófonos, ou, não anglófonos, mas desejosos de presentear alguém anglófono, ou, ainda, colecionadores de Disney e Disneymanos em geral, assim como curiosos e afins, podem "buscar" por título e/ou autor na Amazon.com, encontrá-lo e encomendá-lo. Cientes de que possuirão e serão possuídos pela expressão física de uma experiência espiritual, o que, com tudo somado e multiplicado e dividido, é uma e a mesma coisa.

Nota: Acabo de ser informado pela autora, que Marceline [que discutível versão diz significar "devotada a Marte", mas eu opto pela corruptela da composição Mar (de mar) + Céu (do italiano celo, célia, celeste, celine, coeli etc.), daí MarCelo] é topônimo de onde Walt passou os ternos anos de sua psicoformação, período em que se irmanou à natureza e aprendeu a amar os animais (que, chegado o tempo e com toda justiça elevados à categoria de, ainda que heterodoxos, protagonistas, em si! e não apenas cacomimetizando humanos, não lhe faltaram - povoaram e irrigaram e semearam e fizeram frutificar o seu imaginário e o de todas as crianças de todo o mundo "Uni-vos!"

Lendo e relendo passagens antológicas do livro, chego à conclusão de que, na verdade, não é de Disney que Eleonora nos que dizer, podia bem ser outro tema qualquer de que tivesse Erlebnis - seu escopo é tomografar e pôr a nu a degradação da civilização e dos seus valores, aqui submetidos à lupa e ao crivo. Mas ela não será casmurra, pois sabe se blindar com Verstand e Verständnis e circular como pérola na pocilga, melhor, (re) flor de lótus na lama. Já sei, logo ela carpintará seu próprio arcabouço filosófico, o que significa que ela ainda vai nos dar muito trabalho.

Disney não pertence à História porque a História pertence ao Tempo - Disney pertence à Infinita Eternidade.

Rio de Janeiro 2009

© By Alexandros Papadopoulos Evremidis = > escritor crítico > Email

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"O Perdão dos Anjos - Contos Eróticos", de Eleonora Duvivier / Edições Inteligentes.


Eleonora's Zeitgeist = Drama da Paixão

By Alexandros Papadopoulos Evremidis


Dizem estarmos fazendo uso de apenas 5 a 10% do nosso cérebro. E (se alguém já não disse) digo eu que também apenas igual variação de porcentagem de humanos faz uso de sua liberdade (o único bem de real valor). Eleonora, assim como poucos outros portadores do sinal, está inserida nesse valor. De fato, ela faz uso que raia o abuso - pleno e irrestrito - dessa sua liberdade. Com inocência e ingenuidade, com pureza (o que é isso?). E só por isso ela já ganhou o dia, razão porque agora quer ver a/à noite.

Livros há (os meus, por exemplo) que só têm alguma graça e deles auferimos algum prazer quando lidos de enfiada (e descartados em seguida). Outros, como os bons vinhos, precisam ser saboreados gole a gole. É novamente o caso de Eleonora. E foi o que eu fiz com os contos dela - li um por dia. E não por outra razão qualquer, senão que por medo de a leitura acabar logo e eu ficar à deriva e, pior, naufragar, afundar, me perder.

O erotismo do subtítulo, que ela, modesta, escolheu e se impôs como circunscrição e limite, não se esgota nem se exaure no excitante trompe l'oeil, armadilha que nos subjuga e submete a sevícias. Na verdade verdadeira, seus contos são animais possessos que, impelidos pelo "Drang zum Leben", transcendem o instinto e se afirmam tragicamente humanos. O pothos torna-se então catalisador e carrasco do pathos. Caudalosos e infrenes, eles tangem a psicologia psicanalítica, a sociologia, a ofensiva filosófica (que na solidão do seu exílio torna (?) o homem homem).

Não bastasse, Eleonora contrabandeia o contraponto e tudo envolve (do contrário, a autora não sobreviveria para contar a história) em muito humor e outro tanto de ironia, do tipo, soda cáustica. Não há piedade nem auto-indulgência. Sem para onde correr, nos sentimos humilhados de tão ridículos, vestidos em meio a um mundo de desnudos.

Nem por isso (terá sido por isso?) deixei de surpreender meu baixo ventre se intumescer e exigir satisfações, conto após conto, dia após dia. Digo dia porque, ansioso por mais, de noite eu sonhava sonhos (indistintamente eróticos) e até alguns pesadelos protagonizados pelos monstros dela (igualmente ou mais eróticos).

Pra fechar, e em vista do dito, direi o óbvio: que formalmente a narrativa flui como pacífico riacho de cristalinas águas, um tom confessional de acordes perfeitos harmoniza o ambiente. Já materialmente, permeados por dissonâncias, sustenidos e bemóis, os contos jorram tal qual esperma adolescente, em jatos entremeados por avassaladores hiatos emocionais - síncopes e apneias. Sonda que sonda o insondável e remexe no lodo das águas profundas e escuras e imundas e de lá arranca e arrasta todo o lixo ocidental e oriental, os traumas e os entraves, os dejetos e os rejeitos, as toxinas e a matéria fecal.

Agora acabou: Nos tempos em que vivemos e em que as coisas não mais existem, apenas as prostitutas palavras, Eleonora, que conhece seu peso, seu volume e sua semântica, faz a sua e a nossa catharsis e nos acolhe e faz renascer do seu cálido e úmido útero. Sinto-me de banho tomado e alma lavada. Rejubilemos! Nasceu uma ímpar flor de lótus. Nos lodos.

Rio de Janeiro 2006

©Alexandros Papadopoulos Evremidis > escritor crítico > E-mail

Para obter "O Perdão dos Anjos", contatar: Edgar Duvivier: 21 2512-4504 ou e 9801-0842 ou E-mail // Edições Inteligentes: 11 31790081 ou E-mail // Eleonora Duvivier: E-mail


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Alexandros Papadopoulos Evremidis = > escritor crítico > Email
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