| Thiago Honório |
“Corte” traz elucubrações filosóficas e poéticas transmutadas em obras de arte. Sua natureza discursiva corresponde à complexidade do pensamento estético que engendra a produção de Thiago Honório, estando esta atrelada ou não a uma investigação acadêmica.
Honório abraça a questão da arte contemporânea ser e conter sua própria filosofia estética, compreendendo o objeto artístico como uma Obra Aberta passível a infinitas leituras por parte do espectador-fruidor. É nessa via de entendimento que se dá seu meticuloso procedimento, o qual contraria os já clichês do “acaso” e da “espontaneidade” que sustentam o discurso de muitas pesquisas de arte hoje. Assim, Thiago Honório não vacila, e prefere o projeto controlado ao projétil em vôo livre – embora não ignore que a imprevisibilidade da resultante artística seja um dado incontornável e necessário.
Sua prática criativa segue uma lógica de estudos na qual articula autores como Georges Bataille, Paul Valéry, Jacques Lacan, Theodor Adorno e Walter Benjamin, além de cruzar referências variadas como distintos movimentos da arte (Surrealismo, Arte Conceitual, Minimalismo entre outros), o cinema, a psicanálise, a fenomenologia, as ciências exatas e a medicina, para citar algumas.
Thiago Honório pensa o objeto de arte como uma extensão da própria fonte textual, a qual funciona ora como estímulo originário da sua criação, ora como via que orquestra no espaço a experiência visual. Não é por acaso que são utilizados materiais nobres para constituírem o corpo sensual dos pensamentos complexos que transmuta em obras.
O artista busca reunir na sala expositiva “temporalidades heterogêneas, por vezes inconciliáveis”, valorizando (ou provocando) algo que chama de “suspensão temporal”. Nesta mostra o tempo da galeria é estanque, consequência de um certo aspecto “descontínuo, inacabado, elíptico” das obras. Nesse sentido, a ideia de disjunção norteia a elaboração das cúpulas, vitrinas, redomas, objetos, displays e desenhos espelhados, construídos todos a partir de um princípio de antagonismo material-conceitual que forma duplas críticas: opaco/translúcido; animal/mineral; artificial/natural; superfície/profundidade; negativo/positivo.
“Corte” começa a ser formulada em 2008. O título se relaciona à importância deste termo no cinema e sua relação com o princípio de montagem. Assim, presas de animais, acrílicos, chifres, peles, metais, espelhos, entre outros são justapostos para, num pacto de convivência, formarem uma peça harmônica. É ainda a noção de justaposição que permitirá a reunião desses elementos tão estranhos entre si, sem que eles se anulem individualmente como significantes que são.
Em “Corte”, os materiais constituintes dos objetos e mesmo dos desenhos, são também a sua própria textualidade. As obras não contam estórias nem se reportam ao mundo como uma representação da vida. De acordo com a filósofa francesa Anne Cauquelin, a arte contemporânea apresenta possibilidades de transcendência da noção de representação nas quais há sempre uma porta aberta para que o significado da obra seja complementado pelo espectador, que por sua vez também não mais “expecta” mas participa da construção de sentido do objeto artístico. Em suas palavras, “a expressão de uma obra é sua extensão para fora de si mesma e não a expressão de seu autor querendo ‘significar algo’ ”.
Como já foi apontado, Honório administra facilmente tais preceitos sobre a arte contemporânea, e por isso sente-se confortável para confundir os sentidos do outro ao provocar instabilidade comunicacional por meio de solidez matérica: suas obras fascinam enquanto construções visuais sofisticadas apoiadas em paradoxos dialéticos que lançam um permanente enigma.
A produção deste artista comenta com sutil cinismo os critérios duvidosos de pureza e originalidade da arte, hoje tornados mais que nada figuras de linguagem – ou recurso comercial –em um caótico tempo de remixes e remakes nos quais a autenticidade de uma peça reside principalmente na sua capacidade de reordenar referências já existentes. E nessa concepção, “Corte” é portanto texto que re-escreve mundos para odená-los no ambiente da arte.
Daniela Labra

Rio de Janeiro 2011


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