| Mario Cravo Neto - Fotografias |
Áksie, Babalorixá, áksie!

©Alexandros Papadopoulos Evremidis*

Akira Dizer (e, por ato falho, eu disse, mas ligeirinho me retifiquei ressalvando) que aquilo já não mais eram fotografias, eram pinturas, seria injustiça cometida tanto contra a fotografia quanto contra a pintura - na verdade, eram, são, não mais nem melhor que uma e outra, apenas e simplesmente além (não ambigua ele a tautologia do Trance e do Trans?!), muito além do visível e do tangível, do sensorial, no geral:

Entidades e daí transcendentes (egrégoras aparições) - seres feitos de não-seres, essências puras, atos da paixão. Que o diga Akira (homenagem ao sublime Kurosawa e reencarnação de Buda dos oito largos passos condutores à Iluminação), filho do fotógrafo, pintor, artista, melhor, pensador, "fazendo a cabeça" (cabeção - de espaço cranial supondo imensa massa encefálica) aos 6 - olhos semicerrados, mas penetrantes, fitando o aquém e o além, o eso e o exotérico. Musculatura facial em contida tensão de prontidão. Expressão determinada, concentrada, volitiva, mirante e aspirante ao objetivo. E qual é esse objetivo? Não é crescer em todos os sentidos o objetivo de todo objetivante infante? E todo mal, que em seu caminho se interpuser, vencer? Não é para isso que "eles" "fazem a cabeça" e "fecham o corpo"?!

Grande foi o alvoroço do público, aqui assustado, acolá con/f/t/undido (emocionalmente), ali impressionado, adiante, magnetizado, encantado, em todo caso, intrigado é uma palavra justa diante dos esfíngios enigmas propostos pelos territórios do transe e do eterno presente, consolidados num só retrato - o seu, sim, o teu (para que dúvida não mais haja) e de quem mais assim desejar e sonhar. Havia sangue, sim, e em abundância, ritos sacrificiais (primícias e primanoctais) e cerimoniais e litúrgicos, aves degoladas, penas denotativas e penas conotativas, e, houve quem suspeitasse, até a agonia de um decapitado bode (não preto, branco!) para perverter o paradigma. Tudo visto, entrevisto e espiado, espionado por frestas (e o que é uma lente, senão uma fresta?), armadilhas montadas, tudo lido e relido e assombrosamente magnificado em suas questões e sugestões filosóficas.

Falar em fresta, não há como não falar na obra em que a densa escuridão é interrompida por uma fresta que busca a (esperança, disse alguém) referencial linha do horizonte, a amplidão da luz, do azul do mar - este uterino útero hidrossalino por que ansiamos em nosso eterno retorno, chega! a liberdade.

Repetir a fresta é dizer da bailarina que dizia estar vendo uma gigavagina, convidativa! enfatizou (e Luka, o outro filho, confirmou), provida até de um megaclitóris. Sexo e/é violência?! Achando graça, eu, sem graça, pensava simplesmente em espaços acolhedores de nossas misérias, confortadores de nossa insolvente solidão. Mas a amante do engenheiro, do Carrá, e o anjo judaico, do De Chirico, não me sossegavam.

Mas, espere, ainda há mais: Falar em solidão, é quebrar a cabeça atulhada de lixo atômico e não conseguir ver/enxergar/entender qual o propósito de uma pedra negra de meio palmo enfiada na orelha de uma mulher (sua, dele - minha mãe, clarifica Akira). Era a Kaaba e a seu redor os dervixes viriam dançar a delirante dança dos celestes corpos ao som do som dos espaços?! Ou era travessura do Arp acomodar sua pétrea escultura do silêncio ali?

Está escrito em meus escritos - "Não pergunte ao artista o que nem por quê. Ele não sabe dizer, sabe fazer". Renegando o dito, abalroei o Cravo: Fazia aquela pedra parte dos macumbeiros rituais da "fazedura"?! Não, era só a pedra do silêncio. Bem, nesse caso, era um tapa-ouvido pra abafar o ruído. Também não - era para ouvir o silêncio (da solidão da pedra, de todas as pedras, incluídos aí estando nós, que também pedras somos recobertas de algum musgo). E então, subitamente, luz e súbito e estranho silêncio se fez e arrepios corrreram pelas rodovias do silêncio.

Isso foi no dia 21 do século 21 na arte 21. Na despedida, chamei a atenção do Afonso sobre essa cabalística curiosidade e relembrei que havia pouco anos aquele era um desértico espaço, agora, por eles transformado em convergência de feliz e fértil algazarra, mas que ainda assim o signo do silenciosamente sinfônico silêncio ali pairava.

No dizer, aqui reduzido, do pensador/poeta: "Exu solitário nos habita e navega". Ou por aí. E também por aqui.

Rio de Janeiro - Setembro - 2006.

©Alexandros Papadopoulos Evremidis > escritor crítico > Email


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