Mariannita Luzzati
A beleza na singeleza. ©Alexandros Papadopoulos Evremidis*
- Mariannita rima com bonita - digo e a artista, de cacheados cabelos louros e pele branquinha, enrubesce e fica toda rosadinha. Repito: bonita - é esse o adjetivo que melhor se aplica a toda a extensão de suas extensas pinturas que nos falam de um sonho (para uns, pesadelo) colorido que sonhou. Foi com ele que ela me contaminou e, sem outra saída, nele embarquei e passei a sonhar junto. E foi bom.
Bem, bonita toda obra de arte é dirá um desavisado e não será sem razão. O que faz a diferença, entretanto, é que, diante das criações de Mariannita, esse foi o primeiro e mais poderoso vocábulo que me assaltou e tomou e possuiu. Obras há que são interessantes, alegres, coloridas, exóticas, românticas e até tristes e melancólicas, dramáticas mesmo e, por vezes, trágicas. As de Mariannita são bonitas e nostálgicas e desejosas de algo que já não mais existe - ou porque já se foi e passou, ou porque ainda chegado não está o seu "momentum" - uma intensa saudade do futuro.
- E então, achou o mundo muito desértico demais e resolveu povoá-lo com essas suas primordiais e arquetípicas figurinhas? - brinco e o rosado das faces de Mariannita se satura até virar escarlate - vivo e rutilante, incendiário. Sensorial e sensual.
- O que é isso, quem sou eu ... - murmura ela com encabulada modéstia.
- E por que não? - socorro-a. - Todo artista, no ato da criação, é (não substituir o é por devia ser) tão soberano quanto qualquer deus. E, como todo deus, ele sente o impulso de habitar e semear.A verdade é que Mariannita, apesar, e por causa, de toda simplicidade e de toda aparente ingenuidade, é detentora de um rico léxico, de uma gramática plena de flexões e declinações e de uma sintaxe absolutamente poética (vê como os adjetivos vão se aglutinando?). Tal qual ocorre com as camadas geológicas, ela administra modularmente seu espaço pictórico dividindo-o em áreas cromáticas, mas sem se aprisionar por nenhum rigor geométrico. Livres, elas se interpenetram, sutilmente choram e sangram umas para o interior das outras, criando assim um clima de amorosa proximidade e intimidade. Cores relativas são derramadas de modo intencionalmente ralo em territórios virtuais, contíguos e afins, sem, no entanto, nenhuma promiscuidade.
"Forma e cor" ou "Forma ou cor"? São problematizações válidas enquanto exercícios lúcidos e intelectuais, fluentes em dissertações ou amontoados num compêndio, mas inócuos e sofismáticos no instante dramático da paixão e da criação, da epifania, que é quando a porca torce o rabinho. Por mais de meio milênio, o centro da gravidade foi erroneamente deslocado para a representação do tri no bi. Não se conseguiu enxergar o cerne que é o de dar não uma referência à vida, mas a vida mesma ao inerte - fazer a arte vibrar e nos dizer do não representável. Mariannita parece ter sutilmente ensaiado uma terceira via, a de somar.
Retomando a cor, ressaltar a delicada parcimônia com que Mariannita dela faz uso, como se não quisesse nos ofuscar e impressionar com pirotecnias, apenas nos deixar intuir e fruir toda a beleza dos amanheceres e dos entardeceres, os pretéritos e os por vir. A imagem que me vem à mente é a visão de epidermes entrevistas, quase suspeitadas, através de um véu (não é de noiva), um tule, um voile, que se estende do diáfano ao translúcido. Subitamente temos a respiração suspensa e somos teletransportados para o tal campo dos sonhos - o tempo é outro e o espaço é o que a palavra diz - "espaço", um "topos" virtual, onde não precisamos andar, nadar ou voar, apenas flutuar, despidos de todo medo e todo dogma, do estigma do paradigma - atributos da "tabula rasa" dos infantes com quem ela tem parte.
Está bem: este é mais um daqueles impasses - a artista podia perfeitamente ter parado por aí, por esse seu feliz espectro cromático, e nós não teríamos nem o que pôr nem o que tirar, estaríamos (e nos daríamos como) plenamente satisfeitos. No entanto, não é assim que opera o psiquismo do criador que tem razões que a própria razão desconhece, só o coração sente e consente com o que parece ser heresia no conceito dos intolerantes. Estou me referindo ao transplante dessas estranhas aparições, a manifestação da fenomenologia imaginária.
- Mas, afinal, Mariannita, essas figurinhas, você as inventou por conta de soluções técnicas ou elas exigiram sua representativa presença aqui? - a questão estava aberta e urgente, já que causadora de intensa polêmica, quase um tiroteio, uma digladiação verbal entre os presentes ao vernissage.
A artista hesita, por instantes, como se perscrutasse os confins de sua memória afetiva e, percebendo a proposição de uma cilada, sorri aliviada; mas não renega as suas criaturas:
- Elas exigiram...
- Se bem que elas não chegam a ser figuras propriamente ditas, mais parecem esboços e projeções, insinuações míticas - tento maneirar.
- É verdade - concorda ela e não há conformismo em seu tom, apenas conforto.O tópico se refere à reincidência e à recorrência desses rabiscos mínimos, meros contornos, e no entanto, prenhes de significação. De fato, lá estão alguns estilizados homenzinhos, um cachorrinho, altamente expressivo em seu, a um tempo, envolvente e revoltante mistério, e também um sol - todos negros, em meio àquele onírico universo multicor. Eles não possuem detalhes anatômicos que os caracterizem; são, repito, apenas vultos à sombra de um sol sem luz. Embora pouco plausível, por óbvio, podem estar simbolizando o fim da vida na terra, depois de o Hélios ter consumido todo o seu combustível, para nos esquentar e iluminar o sombrio de nossas vidas. Entretanto, cabe bem: sem sol, como explicar a existência dessa luz que, ainda que difusa, banha a paisagem e confere vida às cores? E, se todos carbonizados, como e por que teria sobrevivido o verde da base - signo maior de vida e de esperança em qualquer das hipóteses?
São conjeturas que, a rigor, não vêm ao caso, que este não é de lógica, é de estética. Mesmo assim, fazem algum sentido, já que mobilizam nossas ansiosas mentes e levam a cada um de nós buscar as respostas, se respostas houver, dentro da sua própria ânima, sujeitos que somos de emoções e de sentimentos. Na outra ponta, houve até quem visse nas pinturas de Mariannita, não o ocaso, mas a gênese da criação, lá nos idos do Chaos (fechando assim o ciclo e fazendo o dragão comer o próprio rabo). O fato de o sol ser negro não o demoveu. Não havia na história da arte jumentos verdes? E quem sabe, aquele não era um sol e sim um buraco negro, desses que não deixam escapar nem a luz!? Nessa hipótese, o sol estaria do lado de cá das telas, o lado de fora. Sim, e por que não? É direito inalienável do cidadão "viajar" sem, no entanto, deixar de estar atento, não ao que o artista quis dizer ou sentiu, mas ao desenrolar dos corredores do labirinto. Em algum canto certamente há um Minotauro à nossa espreita e espera. Nessas horas, é vital não largar de mão o fio da Ariadne, aquele que, contornando o fatal, nos conduzirá a bom termo. Mariannita fez a sua parte e conseguiu - nos deixou horas a fio discutindo animadamente sobre isto e aquilo!
Repito: são elucubrações férteis e estimulantes. Numa leitura mais prosaica, entretanto, diríamos que, como ela se inspirasse em fotos do cotidiano, arbitradas e tiradas por ela mesma, não houve intenção disto e/ou daquilo. Mariannita pura e simplesmente transferiu para a tela a ousadia experimentada no ato do click - a superexposição aliada à "tomada contra-luz" que fatalmente reduzem o sol e as figuras a meras sombras e misteriosos simulacros, insinuações do real. O mérito permanece em qualquer das hipóteses. Desordenar e desarranjar para criar e somar às já existentes uma nova estética e uma nova ordem. Acrescentar beleza à beleza. Não disse?!
Rio de Janeiro 2004.
Alexandros Papadopoulos Evremidis = > escritor crítico > Email
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©Alexandros Papadopoulos Evremidis = escritor crítico > Email
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