"PÁSSAROS DA MESMA GAIOLA", de Daniel Santos / Editora Bruxedo.
A poesia contada.

©Alexandros Papadopoulos Evremidis*

A Gaiola de Daniel Santos é uma preciosidade, a começar por sua feição arquitetural e gráfica, libertando-nos do estereôtipo, ainda que com pequenas alegrias, como a de horizontalizar os textos das orelhas, por exemplo. Nada que seja espetacular e pirotécnico, apenas nos impressiona agradavelmente por sua singeleza e criatividade - ponto para a sensibilidade do artista Danilo Cid. O título nos fala de gaiola no singular, mas a capa, a contracapa, as orelhas e mais os versos de todas elas trazem representações, altamente sugestivas e instigantes, de inúmeras gaiolas - todas em forma de cabeças com seus interiores em labiríntica perspectiva, habitados por intervenções de semas e símbolos significativos. Seríamos, então, nós a um tempo gaiolas e pássaros? E seria a variedade das primeiras um convite para escolhermos a que mais nos convém ou conforta? Eu, por mim, fico com a da contracapa cujo corpo, formado pelos títulos dos vinte contos, configura um poema concreto em marcha robôtica. Nada disso será por acaso e logo saberemos por quê.

Para entendermos os contos a que Daniel deu vida, é preciso lembrar que o autor é jornalista e poeta. O concurso dessas duas atividades, certamente, o equipou - o primeiro com a clareza, a ecomonia verbal, a objetividade; o segundo com a síntese incondicional, a transgressão e ruptura dos limites, a conquista da liberdade para mergulhar por inteiro na criação. Assim, o seu texto flui como o tempo flui, sem nada para atravancá-lo, acelerar ou retardá-lo; engaiolar e aprisionar, nem pensar!

E assim também nós não temos pressa alguma para saber o desfecho dos relatos de Daniel. Parece até que isso é o que menos importa. Nosso prazer se resolve à medida do percurso. Com confiança na segurança. E nisso ele foge do conto-pradrão - uma história densa, mais, compactada, com início lento, meio crescendo e precipitado final, habitualmente inesperado e surpreendente. Aquele que nos deixa de queixo caído, com sorriso amarelo ou cara de bobo. A opção e Daniel é outra - ele, deliberadamente, não segue o modelo, ainda que de valor e eficiência comprovados, e tampouco se serve de truques e mágicas; não recorre a malabarismos nem dá saltos mortais para nos subtrair a respiração. Sabendo o que faz, nos cativa e seduz, nos hipnotiza, isso sim, ora com sua calma, seriedade e serenidade; e ora com sua leveza, sua ironia e seu humor cáustico. O pior que ... nós gostamos, porque ele é do tipo que bate mas também assopra, envolve, nutre, acaricia, protege, ilumina. Trata-se de um cúmplice, não de um carrasco.

Mas afinal como é que ele consegue essa façanha? Não sei, amigo leitor. Posso conjeturar: talvez, porque, no fundo, os contos dele não sejam ficção, mas histórias reais hiperbólicas, modo de dizer, exagerar para acertar o alvo. Como se, digamos, ele nos conhecesse, a todos nós, com absurdamente intensa familiaridade, e se aproveitasse desse atributo para fazer uma devassa, uma vivisecção, uma tomografia computadorizada em nossas mentes, almas, corpos, o diabo a quatro.

Sim, parece fazer sentido, ele é um de nós e se refere a nós. Credenciado, captura pequenos trechos de nossas vidas e nos revela a terrível solidão em que tonteamos - solidão solitária, solidão a dois, em familia, em sociedade; a impossibildade de comunicação e, mais, a absoluta impenetrabilidade do "outro"; o frio interior que nos enregela os dedos de carcomidas unhas; a traição nossa de cada dia que "uma não denuncia e a outra não explica"; o erro essencial de pessoa; os mitos que se desfazem em seu recheio de areia; os contagiosos cansaço e sonolência que nos tornam necessitados de empurros e cutucadas; os espaçosos companheiros que acabam nos expulsando da cama de casal para o sofá e daí para a área de serviço, até ganharmos a rua do sem destino; os medos e as angústias; os falsos pudores; a corrupção; a automação; os robôs sem sentido e direção em que nos transformamos, ...

Seria o niilismo, o fim? Seríamos condenados à danação? Não, o poético contista nos concede o benefício da esperança. Afinal, há sempre uma janela aberta, mesmo que seja uma refletida sobre a bolha de sabão, por onde poderemos fugir, em direção à liberdade. Essa mesma que sentimos ao terminar de ler "Os pássaros da mesma gaiola", cujos personagens são Daniel Santos e todos nós. Sim, repito, estranhamente, ao fechar o volume, apesar de todos os malogros e mazelas, não nos sentimos revoltados, tristes ou deprimidos; e nem, certamente, era essa a proposta do autor; antes, saímos aliviados, apaziguados, confortados. Alguém disse tudo que queríamos ter dito para desabafar, nos revelou a nós mesmos e nos reconciliou conosco mesmo e, ainda, lucro adicional, com "o outro". O livro de Daniel Santos é uma legítima, benfazeja e libertadora catársis. Um estado de graça.

Parabéns à Editora Bruxedo por esse garimpo.

Rio de Janeiro - 2002.

©Alexandros Papadopoulos Evremidis > escritor crítico > Email


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