| Arnaldo Garcez - Dança para não dançar |
"Altos teores de expressividade"©Alexandros Papadopoulos Evremidis
O que mantém o homem vivo? Perguntei e Garcez sem piscar respondeu: O trabalho! É a ele que agora nos convoca com a dança - pesquisa e superação dos humanos limites. Mas não pelos sabidos atributos plásticos, nem stricto sensu, mas como metáfora da luta e da conquista, da ocupação dos terreiros e do resgate social (dos que, de resto, não teriam por que dançar), da construção da sua humanidade. Sim, dança é vida ativa - dançam os celestes no infinito, os vivos na terra e os elétrons nas regiões de máxima probabilidade.
É sem dúvida auspicioso sinal de amadurecimento e excelência quando um artista, sublimando as próprias dificuldades e as do egótico mundinho, consegue, romper barreiras e lançar olhar amoroso e acolhedor sobre as inquietações do grupo social circundante e, desejável, além, sobre a humanidade, já que comuns são as preocupações e as angústias.
É o caso do experimentado Garcez, cujo histórico genealógico, de autóctone, e artístico, de epígono do expressionismo alemão, o legitimam ao paradigma da citada circunscrição. Basta recordar recentes pinturas denunciando truculências contra o meio-ambiente e a opressão das mulheres por culturas retrógradas (temerário! chamá-las de civilizações). Não esqueço da série Músicos, gerando em mim óbvia premonição: Ele põe as pessoas pra vibrar; logo as fará dançar!
Garcez é artista comprometido com o lado afirmativo e luminoso da vida, com a celebração do belo e libertário, com a justa simetria do homem, em sociedade e com seu habitat, com os valores fundamentais que o adjetivam como sapiens. Não passou isso despercebido aos responsáveis pelo padrão global de qualidade - várias de suas criações valorizam cenários de novelas como Cor do Pecado, Mulheres Apaixonadas, Senhora do Destino, América.
É nesse sentido e direção que devemos apreciar a Dança para não dançar, com 16 obras do mais puro deleite - formal, material, cromático. Na execução, o artista se impôs desafios, restringindo, por exemplo, o formato das telas a grupos de 60x60cm, 80x80cm e 100x100cm. E foi dentro desses parâmetros que, com coreográfica marcação, inseriu seus bailarinos, de corpo inteiro e em significativos closes. Sutis gradações evitam a mumificação do instante – ao contrário, trechos inteiros da coreografia vibram como se as toscas figurações saltassem e nos envolvessem em cúmplice pas-de-deux – é quando a arte interage com a vida e lhe confere sentido, transcendência.
A dança de Garcez é exercício para a mais difícil e, a um tempo, mais doce das batalhas – a da vida pela vida, que não pode, não deve, ser deixada para amanhã (longe demais); é pra já, para assim, quando o amanhã chegar, enfrentá-lo de peito aberto e sorriso nos lábios. É essa a sugestão que Garcez, suponho, quis fazer. E pelo visto fez bem feito! Cresci, leitor, nos pés do Olimpo, onde os camponeses, ao voltarem pra casa, após um dia inteiro de exaustivo trabalho, se põem a dançar - pra descansar, dizem. Dizer mais?
Rio de Janeiro 2005
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