"O ANDARILHO", de Albino Neves.
Ser autor e personagem do seu sonho!

©Alexandros Papadopoulos Evremidis*
Nas grandes ordens esotéricas, o iniciado tinha que descer ao fundo do poço. Na medida em que ia descendo, enfrentava seus fantasmas e ia libertando-se deles. Só assim poderia encontrar a Luz, ser um iniciado e, quem sabe um dia, tornar-se um mestre. Daí o porquê de um grande iluminado ter dito que "é mais forte o homem que vence a si próprio do que aquele que vence mil homens em combate."

Bastaria esse trecho de "O ANDARILHO" para nos assaltar a convicção de que seu autor e seu personagem caminhante já alcançaram o grau de mestre, senão de mestre de mestres. Sim, porque não se pode escrever um livro desses, tanto do ponto de vista formal como material, sem ter antes trilhado as veredas que levam ao topo da montanha da luz ou descido ao seu contraponto - o fundo mais fundo do poço das trevas, que é desse amalgama que são constituídos o conhecimento e a sabedoria do homem.

Formalmente, a linguagem é impecável, o vocabulário rico, o estilo enxuto e fluente como água cristalina. Não causaria estranheza alguma se o livro fosse adotado por professores de literatura e de comunicação como modelo de bem-escrever. Há, certamente, um dedo da militância no jornalismo nesse mérito, por ser um campo mais que apropriado e fértil para o preparo e o amadurecimento de um escritor. A urgência, a correria, os limites do espaço, a pressão e os cânones do distanciamento, da imparcialidade e da objetividade ensinam a quem sonha com as belas letras a concisão e a economia verbal, atributos necessários, mais, obrigatórios para o exercício dessa arte, que é ir direto ao osso, mais, à medula, à essência do humano que há em cada um de nós, expor-lhe as grandezas e as misérias e desvendar-lhe os mistérios.

Já materialmente, embora o livro de Albino Neves estampe como sub-título "Viagem Rumo ao Infinito", na verdade, são duas viagens - uma física e outra espiritual: Na primeira, ele descreve detalhadamente a penosa, e a um tempo prazerosa, aventura rumo ao desconhecido. À medida que avança, demonstrando um grande intimidade ecológica, ele vai nomeando e descrevendo respeitosa e amorosamente cada vale e cada montanha, cada árvore, flor, graveto, pedra, alimento, fonte de água e perfume natural, servindo-se de palavras, que, devido ao globalizado empobrecimento vernacular, estão há muito em desuso ou são desconhecidas da maioria dos urbanos, mas que conferem à narrativa um sabor de realidade, de terra, de raíz e de matriz.

Na segunda, inspirada e engendrada pela propícia ambientação, Albino faz seu personagem intercalar meditações, reflexões e intervenções propedéuticas por parte dos espíritos-avatares da natureza, com um ousado e corajoso, como poucas vezes visto, desnudamento e exposição de sua vida mundana (a primorosa capa de Welington Vilela é sintomática!), apontando os erros, as falhas e os fracassos, voluntários ou acidentais, mas que ao invés de embrutecê-lo, abatê-lo e fazê-lo rastejar e se aniquilar, acabam por fortalecê-lo e equipá-lo com as ferramentas indispensáveis para a caminhada rumo à luz e à conseqüente sabedoria. Que, de fato, finalmente foi alcançada. E esse livro é prova cabal da afirmação! E isso apesar do insistente, recorrrente e exagerado apelo ao tal "Grande Arquiteto do Universo" e seus êmulos, que, de tão exaustivamente repetido por toda sorte de autores esotéricos e místicos, tornou-se clichê surrado e batido, perfeitamente dispensável para o lúcido e perspicaz Albino Neves. Ater-se, ao invés, à Natureza, ou "Mãe Natureza", que seja, manter-nos-ia, a nós mortais comuns, mais esperançosos, por mais próximos ao terra-a-terra, e dotaria o relato de maior credibilidade.

Rio de Janeiro 2001

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